Aula 15 — Sensoriamento Remoto Aplicado II: Mudanças e Trajetórias
Curso de Geografia
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
2026-04-15
Objetivo da Aula
Compreender os métodos de comparação temporal em sensoriamento remoto, interpretar trajetórias de transformação da paisagem e discutir suas dimensões socioambientais, utilizando séries históricas de imagens e dados do MapBiomas.
A paisagem é dinâmica — seus padrões se transformam no tempo por:
| Tipo | Exemplo | Velocidade |
|---|---|---|
| Conversão | Floresta → pastagem | Rápida |
| Modificação | Floresta densa → floresta degradada | Gradual |
| Recuperação | Pastagem → regeneração | Gradual |
| Cíclica | Vegetação caducifólia (seca/chuva) | Sazonal |
| Abrupta | Incêndio, deslizamento | Instantânea |
“Compreender a paisagem exige leitura do presente E do passado. Padrões atuais são resultado de trajetórias históricas de transformação.” (Turner & Gardner, 2015)
A detecção de mudanças complementa a análise estática (Aula 14) com a dimensão temporal.
Vantagem: simples, intuitivo, não exige processamento Limitação: subjetiva, difícil de quantificar
\[\Delta NDVI = NDVI_{t2} - NDVI_{t1}\]
Vantagem: quantitativa, espacialmente explícita Limitação: sensível à sazonalidade e condições atmosféricas
| Classe \(t_1\) | Classe \(t_2\) | Transição |
|---|---|---|
| Floresta | Pastagem | Desmatamento |
| Pastagem | Solo exposto | Degradação |
| Solo exposto | Vegetação | Regeneração |
| Agricultura | Urbanização | Expansão urbana |
Vantagem: identifica o tipo de mudança (de quê → para quê) Limitação: erros das duas classificações se acumulam
Para a disciplina: usaremos a abordagem de pós-classificação via MapBiomas, que oferece mapas anuais prontos e matrizes de transição.
Uma trajetória é a sequência de estados que um pixel (ou unidade da paisagem) percorre ao longo do tempo:
1985: Floresta
1990: Floresta
1995: Floresta → Pastagem ← CONVERSÃO
2000: Pastagem
2005: Pastagem → Solo exposto ← DEGRADAÇÃO
2010: Solo exposto
2015: Solo exposto → Regeneração ← RECUPERAÇÃO
2020: Vegetação secundária
O MapBiomas classifica a cobertura do Brasil a cada ano desde 1985, permitindo:
| Período | Floresta (%) | Pastagem (%) | Agricultura (%) |
|---|---|---|---|
| 1985 | 63% | 25% | 3% |
| 2000 | 55% | 32% | 5% |
| 2010 | 48% | 36% | 8% |
| 2023 | 42% | 38% | 12% |
Perda de ~21 pontos percentuais de cobertura nativa em 38 anos.
A matriz de transição mostra a conversão entre classes em dois momentos:
| \(t_1\) \(t_2\) | Floresta | Pastagem | Agricultura | Solo exposto | Total \(t_1\) |
|---|---|---|---|---|---|
| Floresta | 800 | 120 | 30 | 50 | 1000 |
| Pastagem | 20 | 550 | 80 | 50 | 700 |
| Agricultura | 5 | 15 | 170 | 10 | 200 |
| Solo exposto | 10 | 20 | 10 | 60 | 100 |
| Total \(t_2\) | 835 | 705 | 290 | 170 | 2000 |
Leitura: A diagonal (negrito) = estabilidade (sem mudança). Fora da diagonal = transição. Exemplo: 120 ha de floresta → pastagem; 20 ha de pastagem → floresta (regeneração). Ganho líquido de pastagem = 705 - 700 = +5 ha. Perda líquida de floresta = 1000 - 835 = –165 ha.
| Fator | Mecanismo | Exemplo |
|---|---|---|
| Expansão agropecuária | Conversão de vegetação nativa | Desmatamento na Caatinga |
| Políticas públicas | Crédito, regularização, proteção | PRONAF, CAR, UC |
| Infraestrutura | Abertura de estradas, irrigação | Pivôs no semiárido |
| Mercado | Preço de commodities, demanda | Soja, pecuária |
| Abandono | Êxodo rural, inviabilidade | Regeneração em encostas |
| Eventos climáticos | Seca prolongada, enchente | Perda de mata ciliar |
Driving forces → Pressões → Estado → Impacto → Resposta
(economia) (desmatamento) (paisagem) (biodiversidade) (política)
Para cada mudança identificada, pergunte:
“Entre 1990 e 2020, a área de estudo perdeu 58% da cobertura de caatinga, concentrada nas áreas de relevo suave (< 8% de declividade), sugerindo conversão seletiva para pastagem extensiva. A vegetação remanescente (12%) concentra-se em encostas íngremes e topos, formando fragmentos isolados sem corredores de conexão.”
| Limitação | Problema | Mitigação |
|---|---|---|
| Nuvens | Ocultam superfície | Composição temporal (mosaico) |
| Sazonalidade | Vegetação caducifólia parece solo nu | Comparar mesma época do ano |
| Resolução | Feições menores que o pixel | Usar SR de maior resolução |
| Classificação | Confusão entre classes semelhantes | Validação com amostras/campo |
| Período | Série pode não cobrir o evento | Complementar com outras fontes |
✅ Comparar mesma estação do ano ✅ Usar composição temporal (mediana, mosaico) para reduzir nuvens ✅ Verificar consistência entre fontes (MapBiomas vs. imagem bruta) ✅ Distinguir mudança real de variação sazonal ✅ Relacionar mudanças com contexto (política, economia, clima) ✅ Documentar incertezas e limitações na análise ✅ Triangular com outras evidências (campo, entrevista, dados sociais)
“O sensoriamento remoto mostra O QUE mudou. Cabe ao analista da paisagem interpretar POR QUÊ e COM QUE CONSEQUÊNCIAS.”
A imagem é evidência. A interpretação é do geógrafo.
Na Aula 16, você produzirá um registro interpretativo de mudanças na área de estudo:
Obrigado!
Luiz Diego Vidal Santos
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Análise da Paisagem — Aula 15
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